Casal venha a Lisboa

DavidMourão-FerreiraDalila aconchegou-lhe a roupa à volta do pescoço: certamente julgava-o já adormecido. E virando-lhe as costas, também ela, a seguir, se esgueirou para dentro dos lençóis. Sob o dourado capacete dos cabelos oxigenados, cortados curto, a nuca oferecia um pobre aspecto vulnerável. Na rua, parecia uma mulher quase imponente; mas o pescoço, muito direito, não era apenas o de quem queria aparentar menos de quarenta anos: era igualmente o de alguém que já engolira muita lágrima. Via-se que tinha sofrido um bom bocado. Não confessava, todavia, o que sofrera: exibia, pelo contrário, a cada momento, um passado todo fulgurante – como se pretendesse ocultar, por trás de um leque de plumas, as rugas e os sinais do tempo.

David Mourão-Ferreira in “Gaivotas em Terra”, 7.ª ed., Editorial Presença, Lisboa, 1988