As estátuas começam a caminhar *

O
fim da tarde acontece e as estátuas
voltam à vida
não para levantar a turba (ou moldar
ideologias) mas
por essoutra razão porventura mais prosaica: o
dia de trabalho acabou. Chegou ao fim
mais um dia
(passado a meio de um gesto)
piscando o olho estático a cada fotografia
(ao metálico tinir com que a
calçada
fala). As estátuas descem do alto e
tornam ao movimento
é a pequena vingança pelo que a escassez as obriga –
um dia inteiro quietas
um dia inteiro caladas
um dia a menos na vida.

* João Luís Barreto Guimarães in “Nómada”, Quetzal, Lisboa, 2018