As algemas da boca

cropped-13439022_1585121118454671_129080726636857844_n-2.jpgEra um jovem casal enamorado de fresco. Desejosos de mostrar boa figura e um sorriso sem pregas, ambos usavam aparelhos de ortodontia. O primeiro beijo foi dado ainda um pouco inibidos. Mas logo se entusiasmaram e os beijos aprofundaram-se com as línguas navegando no paraíso. De repente, os aparelhos de ortodontia — aqueles aborrecidos e inestéticos aramezinhos — ficaram presos um no outro e os jovens não conseguiam libertar-se do beijo. Felizmente passou ali um velho electricista que, munido de um pequeno alicate, lhes abriu as algemas da boca. O namoro acabou de imediato. Ambos se acusaram mutuamente de insensibilidade e desrespeito.

— Foi melhor assim. Mais tarde ou mais cedo iam detestar-se na mesma e já sem os aparelhos — concluiu o electricista, um homem com experiência de vida e… sem dentes.

© António Garcia Barreto in “Microcontos”