Um homem simples

Carlos Fernandes saía sempre de casa com o sobretudo pelas costas. Fosse inverno ou verão. E sempre a arrastar os pés como se tivesse mais de noventa anos. E tinha. Era um homem que usava pendurado no olhar a alegria de ter sido republicano e ajudado a derrubar a monarquia. Orgulhoso, também, da sua arte de industrial de calçado, num tempo em que os sapatos eram feitos à medida, atendendo à morfologia dos pés de cada pessoa. A sua vida  consumia-se a trabalhar na oficina, de sol a sol, e pela noite dentro se preciso fosse. Ao domingo à tarde jogava umas partidas de sueca na taberna próximo de casa. Ao longo da vida não acumulou nada. Não nascera com essa ambição. Orgulhava-se apenas do seu trabalho, exigindo a si próprio, e a quem com ele trabalhava, qualidade no serviço.

(António Garcia Barreto)