A leitaria

Na leitaria, as mesas estavam quase todas ocupadas pelos clientes habituais. Um jornal, em cima da mesa, apertado na régua de madeira, esperava que alguém decidisse pegar-lhe. Ler o Heraldo de Lisboa é uma das minhas rotinas diárias mal saio à rua, antes de ir para o escritório. Através da montra aprofundei o contacto com o movimento da cidade. Lisboa encanta-me mesmo quando a realidade que nela se vive me desencanta. Sou sensível aos seus cheiros e à sua luz, aos pregões e à maresia que, em dias de brisa, sobe do Tejo. Funcionários de rosto inexpressivo dirigiam-se para os bancos e repartições públicas, num ritmo de passada imposto pela rotina. O pregão de um ardina ecoou dentro da leitaria. Era uma voz de criança enrouquecida pelo excesso de uso e pela friagem das madrugadas à porta das oficinas gráficas. Logo a seguir, chegou-me o chiar do rodado de um eléctrico da Carris. Buzinadelas e outros sons difíceis de interpretar completavam a melodia desse início de manhã. A cidade saudava o dia luminoso. Dia de Verão, a prometer canícula lá mais para a tarde. Decidi pegar no Heraldo com a ponta dos dedos, como se fosse um bicho sarnento. Interessava-me, sobretudo, a página dos Sports com o comentário dos jogos de futebol desse domingo. Em destaque aludia-se à vitória de José Maria Nicolau no tradicional Porto – Lisboa, em ciclismo, nesse ano de 1935, repetindo a proeza do ano anterior. Folheei mais umas páginas. As notícias nem sempre me enlevam e receei toldar ainda mais o humor desastrado com que acordara. No canto superior direito da primeira página, uma reportagem com um título em letras capitulares, noticiava A estranha morte do professor Cartago. Desconhecia quem fosse. Pareceu-me nome de prestidigitador. Imaginei-me no Coliseu assistindo a um espectáculo de circo, ouvindo o mestre-de-cerimónias anunciar: O grande ilusionista, Professor Cartago, oferece-nos as suas magias e ilusões. Palmas, por favor! Enfim, se o fulano tinha falecido as palmas eram abusivas. O melhor era rezar-lhe pela alma. 

António Garcia Barreto in «Balada do Jardim de Pedras» (obra registada no IGAC)

Autor: António Garcia Barreto

Um tipo à procura de palavras para escrever frases que falem de coisas inúteis.