O detective Eneias Trindade de novo em acção

O elevador iniciou a marcha subindo a colina numa trepidação de ferragens. Num ápice encontrei-me em S. Pedro de Alcântara, a cidade oferecida a meus pés. A Baixa, observada do alto das colinas, encanta quem lhe segue o movimento de velha remoçada. Consultei o relógio. Como bom português cheguei dez minutos atrasado, o que acho deplorável. Este reino não tem emenda e eu ainda menos. Olhei em redor procurando Inês de Castro, ou seja, uma mulher com um lenço às ramagens na cabeça. Não foi difícil descobri-la naquele pequeno jardim de vistas desafogadas. Lá estava ela e o irmão, ao fundo, sentados num banco, numa postura de desamparo. Não pareciam à vontade num espaço frequentado por velhos desocupados e gente humilde, de passagem. Um fotógrafo à la minute, estabelecido com a sua caixa de retratos e sonhos, o seu balde de revelações e o passarinho de madeira a servir de mira, aguardava por clientes. Acenei o chapéu palhinhas conforme combinado. Inês de Castro correspondeu ao sinal erguendo o braço num gesto retraído. Ao chegar próximo deles levantaram-se para me cumprimentar. Eram pessoas educadas. Eneias Trindade, ao vosso dispor. Eu sou a Inês e este é o meu irmão, Jorge, apresentou-se, estendendo-me a mão e de imediato libertando o cabelo do lenço às ramagens.

António Garcia Barreto in “Balada do Jardim de Pedras” (Trecho) (Obra registada no IGAC)