A mulher

1306626499798Sentado no meu lugar habitual, no Café Gualdim, às voltas com as traduções, vejo entrar a mulher alta e elegante, de olhos negros, que me fazia lembrar a belíssima e sensual Monica Bellucci. Havia nela qualquer coisa de misterioso e de provocante. Dirigiu-se ao balcão desfilando elegância e pediu um café. Desse lugar reservado a clientes apressados olhou-me com um misto de interesse e desdém, tal como da última vez que ali entrou. Segurei-lhe o olhar mostrando que o atrevimento dela não me inibia. Pareceu-me notar-lhe um breve sorriso no rosto, que logo se dissipou. Bebeu o café com gestos pausados e elegantes, seguida com atenção pelos três homens que estavam na sala, àquele hora. Logo após saiu para a rua deitando-me novo olhar, cujo significado podia ser, tal como nos veículos dos aeroportos, follow me. Foi o que fiz.

António Garcia Barreto in “Um Sorriso para a Eternidade”, Oficina do Livro, 2010