A menina Eva

No bairro Angústias acontecem coisas estranhas. Não se trata de gatos a miar à lua cheia, ou de cães a ladrar quando ouvem barulhos que não controlam. Não, não é nada disso. São mesmo coisas estranhas, segundo as acusações dos inquilinos de um prédio construído por um pato-bravo nos anos 60, onde a menina Eva é locatária do 3.º andar. Ela refuta as acusações da vizinhança que diz ouvir expressões de amor, de alegria e de felicidade vindas de sua casa. A menina Eva acrescenta que nem mora no prédio. Tem o andar subalugado a um estudante universitário, filho de famílias tradicionais onde impera o decoro e as missas dominicais. Contrapõe, por seu lado, que o rapaz se queixa do catarro do senhor Bentes, das discussões do casal Flores, da música em altos berros que sai pela janela aberta do andar onde mora um brasileiro fã de Elba Ramalho, entre outras indelicadezas, que o impossibilitam de estudar. Para não falar nos bebedores de minis do café-tasco situado no rés-do-chão do prédio, que discutem futebol como se estivessem no estádio a invectivarem os jogadores da equipa contrária. 

Vendo bem, nada disto é estranho num velho bairro onde moram reformados de fábricas, doentes crónicos, drogados, bêbados e mulheres com cortes de cabelo masculino, para mais facilmente lavarem a cabeça em casa. Nem se estranha que o senhor Belarmino teime que aterram OVNIs no seu quintal desde que viu o filme ET cinco vezes na televisão. O senhor Belarmino tem 98 anos. Pode dizer o que quiser. A Polícia já foi chamada várias vezes ao prédio e não constata a existência de OVNIs nem as «expressões de amor, de alegria e de felicidade» que a vizinhança diz escutar com frequência, atribuindo-as a cenas pouco edificantes. As acusações têm subido de tom, acrescentando os inquilinos que na casa da menina Eva funciona um bordel clandestino. Um bordel em que mulheres de outra zona da cidade, desocupadas e com maridos ausentes, em viagens de negócios, convivem com rapazes que passam as manhãs a exercitarem-se num ginásio e as tardes a distribuir felicidade a preços exorbitantes. A menina Eva já foi levada por duas mulheres-polícias para uma conversa informal na esquadra. A Polícia fez buscas e não encontrou nada de incriminatório. Apenas quartos limpos e asseados, com águas correntes, uma sala de convívio com um bar, e estantes repletas de livros diversos, ao lado de uma escrivaninha, além de duas casas de banho com jacuzzi. As obras no andar estavam devidamente licenciadas, não havendo provas que legitimassem as acusações. 

— Talvez não as procurem bem — diz Dom DeLucas, o poeta do bairro, que leu todos os livros de Charles Bukovski e a prosa de Rubem Fonseca. 

O que os inquilinos do prédio também acham estranho é a menina Eva deslocar-se num Mercedes descapotável, embora démodé, viver fora do bairro numa vetusta moradia, cujo projecto foi assinado por um conhecido arquitecto já falecido, andando sempre com uma amiga que pratica lançamento de peso e wrestling. A Polícia também não comenta afirmações anónimas sobre a menina Eva ter um caso com o chefe da esquadra que superintende no bairro. Todos sabemos como é o povo para inventar boatos.

António Garcia Barreto in «A Menina Eva e Outras Histórias de Vizinhança»