As férias grandes

Peguei na mochila e fui visitar a infância. Havia coisas boas na minha infância. Sim, os chocolates, os livros, os comboios. Os comboios que me levavam para casa dos avós, a duzentos quilómetros da capital, cortando a paisagem campestre, parando nas estações onde aguadeiras vinham à janela vender-nos água, ou bolinhos doces, ou flores. O comboio era puxado por uma locomotiva a carvão (logo depois a diesel), que fumava pela chaminé e apitava solenemente à passagem por determinados locais. Era tudo tão espantoso, que eu não tirava os olhos da janela para poder guardar toda a novidade dentro de mim. Tão espantoso como ver a locomotiva a receber água numa estação, ou seguir um comboio com dezenas de vagons de mercadorias puxado por uma locomotiva e empurrado por outra, para conseguir ultrapassar subidas mais íngremes. Quando chegava à aldeia, chegava a um mundo completamente diferente. Os meus avós serviam-se da água da fonte. Lenha iam buscar ao pinhal numa carroça puxada por uma mula ladina e teimosa. Os ovos nasciam na capoeira das galinhas, num caixote com palhas; galinhas que, mais tarde, serviam para fazer uma bela canja. Se queria fruta subia às árvores; ou apanhava cachos de uvas das latadas. Também havia um pequeno riacho onde eu podia deitar um barquinho de papel e ficar a vê-lo navegar ao sabor da corrente. Só não tinha amigos. Na aldeia havia apenas velhos como os meus avós, alguns um pouco mais novos. Para mim, eram todos velhos. A emigração levara a força de trabalho, a juventude, e os filhos nasciam longe, lá para as franças, como diziam. Ainda não havia televisão, nem informática, nem internet, nem smartphones, nem plástico. Apenas rádio, livros, e jornais. E a Natureza com todos os seus cambiantes, fauna e flora. As férias grandes.

(António Garcia Barreto)

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