Exercícios de prosa

Antes de partir para Antuérpia estive no Paço a conviver com a família. Foram duas semanas cheias de ventura. Pedro Afonso crescia saudável e a sua presença agradava a todos. A todos, menos aos indefesos galináceos, que viam a sua existência conturbada pelas insistentes surtidas do infante às capoeiras para folgar com os pintos. Eu e Leonor observávamos das janelas do Paço estes rebuliços do rapaz e uma luz de felicidade tocava-nos o rosto. Frei Luís preocupava-se muito com a educação do menino. Queria para ele os melhores mestres e não se cansava de afirmá-lo. Falava mesmo em Salamanca com a ideia de Pedro Afonso, mais tarde, cursar essa Universidade. De imediato, a aprendizagem do infante decorria no meio dos pintos e de outros animais da herdade. Sem esquecer os pequenos sapos com os quais parecia ter grande familiaridade, antes mesmo de saber pronunciar-lhes o nome. Apesar da ventura desses dias passados em família, tive de regressar a Lisboa. Não podia adiar a viagem para Antuérpia.

Tomei em Lisboa um galeão que se dirigia à Flandres. Daí fui para Antuérpia, cidade que me encantou pelo seu intenso comércio marítimo e pela reunião de gentes de diversas partes do mundo que lá tinha lugar. Situada nos esteiros do rio Escalda, a cidade era bem amuralhada em toda a sua extensão, tendo um canal que corria ao longo da fortaleza, a protegê-la de eventuais ataques do exterior. Era além disso muito concorrida de navios. Durante o tempo que lá permaneci, pude assistir à chegada de alguns barcos do Reino, provenientes de Setúbal e da Ilha da Madeira. Descarregaram sal, barricas de sardinha, cortiça e açúcar e propunham-se carregar panos e trigo, segundo apurei junto dos mestres das embarcações. Ao que me foi revelado, também não lhes seria estranho um carregamento de prata da Europa central que viria para o Reino para cunhagem de moeda. 

© António Garcia Barreto