O meu nome é Octávio

O meu nome é Octávio. Otávio para os meus amigos brasileiros. Otário para aqueles que me acham burro. Mas eu não sou burro. Fiz o liceu e a faculdade, tornei-me advogado, primeiro, e depois político num partido que, entretanto, desapareceu. Mas eu ainda cá estou. No final, presidi à comissão liquidatária desse partido. Liquidei o partido, mas não me liquidei. Acham que eu sou burro? Conversei com amigos colocados em lugares onde importa que estejam e depois de falar com eles dividimos os lucros que há em todos os prejuízos. Toda a gente que importa conhecer me passou a considerar seu igual. Nunca mais ninguém me chamou otário. Passei a ser o Dr. Octávio.

Ontem, estava eu a beber um uísque e a namorar com a Luisinha, uma rapariga que me secretariou no escritório, no partido e no resto da vida, quando tocaram à porta do meu apartamento. Eram dois guardas mal-encarados que me levaram com eles para ser presente a um juiz de execução fiscal.

— Os senhores estão enganados. Sou um cidadão probo — disse eu, mas não ligaram.

Quando entrei no carro, o mais mal-encarado disse:

— Baixa a cabeça, otário.

© António Garcia Barreto in «Histórias à sobremesa»