O Homem do Buick Azul

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O segundo romance protagonizado pelo detective Eneias Trindade.
Portugal, 1933. Um homem desencantado recusa-se a desistir do amor e dos desafios profissionais. Poderá ser feliz sem a mulher que ama num país cinzento dominado por Salazar?
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Pela manhã, quando entrei no escritório, Lisboa ainda não acordara completamente dos mistérios da noite, mas no ar já pairava um cheiro a novidade. Que novidade? Era cedo para adivinhá-lo. Tinha-me cruzado com dois vendedores de fava-rica, ambos carregando a saca com a panela ao ombro, e levando o pregão na boca. Fava-rica, quem quer fava-rica? Como sempre faço, sentei-me à secretária e virei a folha do calendário. O ano de 1933 era ainda uma grande incógnita, embora o passado recente permitisse seguir algumas pistas sobre o futuro imediato. No reino dos céus morava Deus; em S. Bento, Salazar. A felicidade de alguns lordes da pátria continuava a ser responsável pelo desespero de muitos infelizes, que caminhavam descalços pelas azinhagas da vida. No peitoril da janela, um casal de pombos arrulhava amores de ocasião com requebros felizes. O dia era de aguaceiros, com o sol a brincar às escondidas por entre massas de nuvens cinzentas, que pareciam querer retirar-se para ocidente a fim de permitir o brilho do céu. Tomei o primeiro café da manhã a olhar a rua, por detrás dos vidros da janela. Tinha vestido o meu melhor fato, dos únicos dois que possuo. Mandei-o fazer numa alfaiataria da Baixa, em flanela cinza-escura, num mês de bons proventos. Olhei o chapéu de abas, na chapeleira, também ele com aparência de novo. Senti-me bem na minha pele. Devia ser do café e do seu aroma, que ainda pairava na sala. Minutos depois, a mulher entrou no escritório com um ar decidido e um discreto sorriso no rosto. Era jovem, alta e elegante, com o cabelo claro ligeiramente ondulado, caído sobre os ombros. Vestia roupa cara, de figurino estrangeiro, o que me deixou a impressão de estar em frente de uma manequim de alta costura. O seu olhar denotava inteligência e mistério. Mas o que desde logo me confundiu foi a cor dos seus olhos, que parecia alternar entre o cinzento, o verde e o castanho. Talvez fosse o resultado da luz que entrava pela janela do escritório reflectindo-se no seu olhar, pensei. Ou, então, eu ainda não acordara bem de uma noite mal dormida e divagava. Desvalorizei o assunto. Interesses mais altos pediam a minha atenção. Apresentou-se como sendo Salete Dupront. Falei com o senhor, ontem, ao telefone, disse ela, numa pose para retratista. Anuí com um aceno de cabeça indicando-lhe uma cadeira para se sentar. A educação é o respirar de Deus, nunca se esquecia de sublinhar o saudoso padre Angústias.

— Eneias Trindade, ao seu dispor.

António Garcia Barreto, “O Homem do Buick Azul» (Início), Oficina do Livro, Alfragide