A Malta da Rua dos Plátanos

As primeiras casas tomaram corpo e a rua foi traçada em macadame, décadas atrás. Alguém com poder mandou-a ornamentar de plátanos, árvores ainda frágeis cujas folhas, em forma de mão aberta, pareciam acenar-nos lá de cima. Com o tempo essas árvores tornaram-se adultas e vieram a justificaMaltaPlátanosr o nome que demos à rua: Rua dos Plátanos. Para nós que, anos mais tarde, aí nascemos às mãos das curiosas, ante o sorriso dorido das nossas mães, ou para quem lá residia, a rua tornou-se popular. Quando alguém procurava pelo nome da rua, na falta de placa toponímica, logo nós respondíamos com alegria e orgulho.

— Rua dos Plátanos.

Não era esse, porém, o topónimo do local. As autoridades deram-lhe o nome de um poeta português do séc. XVI, que a nós não dizia nada. Nem às nossas famílias. Claro que o topónimo não vingou. Apenas o carteiro se referia à rua pelo seu verdadeiro nome: Rua Cristóvão Falcão. Nessa época, de poetas apenas tínhamos ouvido falar em Luiz Vaz de Camões, já que no meio popular não se livravam da fama de loucos e mandriões. Não acatámos de ânimo leve que as autoridades apadrinhassem com nome diferente o local onde, verdadeiramente, só um conquistara o direito a existir. Mas Suas Excelências desprezavam os sentimentos do povo, de gente a quem a vida deslustrara. A tabuleta oficial recebeu um bombardeamento de pedras que a desfiguraram. Ainda apareceram na Rua dos Plátanos três polícias com caras de mau e barrigas de feijão para tentarem surpreender os desordeiros. A sua presença não nos impressionou nem meteu medo. Escapámos-lhes com a manha dos nossos poucos anos e a eficácia dos nossos pés ligeiros. Ficou por ali a contenda. Rua dos Plátanos continuou a ser o nome querido e proclamado da rua. Mais tarde, já aluno do liceu e com o apoio de um professor, senti pena daquele acto que desfigurara o nome do autor de Crisfal.

© António Garcia Barreto, «A Malta da Rua dos Plátanos», Editorial Caminho, 1981 (edição revista)