As capas dos livros

Houve um tempo, no luso fascismo, em que os livros se vendiam, e aqueles que não tinham dinheiro para os comprar iam ler para as bibliotecas públicas. Claro que havia um índice muito elevado de analfabetismo, sobretudo nas regiões rurais. Hoje esse analfabetismo continua a existir, mas noutra dimensão: a de quem tendo estudado não lê, tem dificuldades na leitura e na interpretação de um texto. Não é preciso ir mais longe: basta ler os comentários nos jornais online. Mas o interessante nos livros publicados naquele tempo de escuridão salazarista é que eles conseguiam chegar a franjas do proletariado, aos empregados comerciais e de escritório. Tinham em geral capas atraentes, preços acessíveis, mesmo que o papel não fosse da melhor qualidade. Estou a falar daquilo que conheci de perto, pois fui empregado de uma grande livraria de Lisboa, infelizmente já desaparecida, na minha juventude. Atentemos nas palavras de Pacheco Pereira sobre o assunto:

E é a surpresa das capas, desde colecções comuns, policiais, de ficção, do “coração”, pulp fiction produzida para ser barata e consumida ao ritmo da semana, infantil, tudo com capas originais, cuidadas para chamar a atenção, muitas vezes berrantes ao estilo das histórias de quadradinhos da época, produzidas por nomes que se tornaram conhecidos, ou já eram conhecidos e respeitados, mas também por um proletariado do desenho, da pintura, dos cartazes, que fazia capas, telas para os cinemas, publicidade, cromos de colecção, capas de fados e partituras. Mas tudo explodia de vigor, cor, imaginação, kitsch do bom. Uma exposição dessas capas seria um sucesso. Nada era deslavado, mortiço,

Pacheco Pereira via “Estátua de Sal

Na verdade, hoje os livros publicados são-no dentro de um conceito puramente mercantilista: se se vendem de imediato publicam-se. Mesmo que o seu conteúdo não valha nada. Se levam mais tempo a vender-se (porque os hábitos de leitura perderam-se, os livros são caros), não são publicados ou entram mal no circuito livreiro. As capas são compradas a fundos de imagens, tendo geralmente pouco ou nada a ver com o conteúdo dos livros. Anteriormente, artistas plásticos de renome ou à procura de nome, como sublinha Pacheco Pereira, apostavam nas capas dos livros como pequenas obras de arte, ligando a imagem ao conteúdo da obra.

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