Vaidades

— Todos eles escrevem livros. É a última doença dos poderosos e dos de boas famílias. Na realidade, não querem escrever mas quem ser escritores. Querem o nome deles na contracapa de um livro. Richard, para além disso, é um “editor de vaidades”, de primeira. As pessoas pagam a um editor de vaidades para ele promover os seus livros. Richard não faz nada disso. É tão discreto e tão selectivo com as suas edições de vaidades que, na realidade, ninguém se apercebe delas. E há muita gente rica e bem colocada que lhe está grata. Em certa medida, é tão poderoso quanto um ministro. Eles entrem e saem mas Richard permanece. Avança na sociedade em todas as direcções.

V. S. Naipul, “Uma vida pela metade”, Dom Quixote.

Esta obra foi publicada, originalmente, em 2001. Estas vaidades chegaram há pouco tempo a Portugal e os “Richard’s” logo apareceram. Não foram tanto os poderosos e de boas famílias, porque cá não há tanta gente assim, e são geralmente discretos. Não gostam dos holofotes da comunicação social. Quem lhes tomou o lugar foram os fabricantes de sonhos bem pagos. Uma classe média alta, mas baixa de pergaminhos, próxima dos media e do jogo da bola, que se autopromoveu através de biografias e autobiografias, talvez escritas por escritores fantasmas.  Já não estamos assim tão atrasados naquilo que menos interessa.