Conhecer o passado

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Saí de casa muito cedo, vestido como se fosse para um casamento, disposto a causar boa impressão. A cidade acordava de mansinho com a luz branca da manhã a descer pelas empenas dos prédios numa languidez sobrenatural. Bandos de pardais procuravam entre as pedras da calçada o alimento para o dia. Um jardineiro municipal regava um canteiro de amores-perfeitos com uma fina chuva de mangueira, que já alagara tudo em volta porque ele estava distraído a falar com uma cantoneira dos serviços municipais. Esta, de vassoura entre as pernas, lembrava uma bruxa pronta para levantar voo. Próximo do quiosque de Bonaparte parou um táxi. Dele saiu um indivíduo de olhar meio vidrado pelo álcool. Os primeiros passos não foram fáceis, quase caiu no passeio. Aquela cara não me era estranha. Quando ele se afastou bordejando as empenas dos edifícios, como uma nau navegando à bolina, reconheci-o. Morava no meu prédio, numa casa alugada. Já tinha idade para ter juízo, mas continuava a levar as noites nas máquinas do Casino, a embebedar-se e a bater na mulher quando chegava a casa. Vidas. Dirigi-me ao quiosque do Bonaparte para comprar os jornais e as revistas habituais.

— Hoje é dia de ir conhecer o passado — disse eu, na brincadeira, pagando a conta.

— Tenha cuidado, doutor — replicou Bonaparte, fazendo festas a Napoleão. — O passado fica longe e quase sempre traz defuntos agarrados e outras moléstias. Só os historiadores possuem os utensílios adequados e conseguem a distância suficiente para remexerem nas catacumbas da vida.

— Obrigado pelo conselho sábio. Vê-se que és um homem de muitas leituras.

— Já fui mais, doutor. Mas o que é que pode fazer um tipo desamado por Deus e pelas mulheres, senão ler e embebedar-se?

— Talvez mudar de vida, não sei.

— É tarde para mudar de vida. Para mim, confesso, foi tarde muito cedo. Resta-me viver de remorsos e solidão.

— Diz antes que entregaste a vida à Divina Providência e ela não tem sido amável contigo. Talvez fosse altura de a ajudares tomando em mãos o teu destino.

— Agora sou eu que digo: palavras sábias, doutor. Mas para mim a vida acabou muito lá para trás, antes mesmo de ter começado a sério. O que vê aqui é apenas uma assombração de um passado que eu não soube respeitar, vivendo-o com sabedoria e dignidade. Bebo para afogar a memória, que todas as noites me tira o sono.

— Nunca é tarde para darmos uma oportunidade à esperança, Bonaparte.

— Vejo que é um homem crente, doutor. Eu já perdi a fé.

— Tu é que sabes. Vou andando.

António Garcia Barreto inUm Sorriso para a Eternidade