Na foz do rio Mandovi

A vida corria-me bem, melhor do que imaginara. Entretanto, tomei de renda uma casa na Rua do Rosário, próximo da foz do Mandovi. Uma casa modesta constituída por um piso térreo e um sobrado, à semelhança das que havia no Reino. Eu residia em cima e na loja arranjara um cómodo para receber outros mercadores, sempre que se justificasse. Não pretendia levantar suspeitas e invejas. Sempre entendi que a discrição resulta melhor que a ostentação. Os tratos decorriam a contento, crescendo aos poucos, embora não fosse fácil concertá-los com mouros e naturais do Malabar, gente astuta nos gestos e nas palavras. Aos fins da tarde, mal chegava das minhas andanças pelo cais e armazéns, estirava-me numa rede na sacada da casa. Um criado servia-me vinho branco que tinha sempre a refrescar no fundo do poço. Assim me deixava ficar no embalo da rede e dos pensamentos. Ali delineava toda a minha vida. Ainda pensava em Leonor, mas algo dentro de mim me dizia que o futuro não seria desenhado à nossa medida. Um mês antes, aproveitei a saída de uma armada que fazia a torna-viagem para o Reino e enviei-lhe uma arca cheia de panos de seda, brocados, retrós, tafetás, veludos e porcelanas finas da China. A própria arca, em si mesma, era de uma grande beleza, feita de madeira de sândalo vermelho e incrustada de pedrarias.

© António Garcia Barreto