Blogs-selfies

Peço desculpa de fazer o papel de advogado do diabo. Tenho-me confrontado com o desinteresse das temáticas de muitos e muitos blogs em diversas plataformas. A ideia presente em muitos deles é de que o seu autor, ou autora, escreve apenas para si próprio: um diário aberto à comunidade. São blogs-selfies. Auto-retratos muitas vezes melancólicos de uma realidade pessoal. Compreendo, por um lado. São pessoas muito jovens que ainda andam à procura do seu lugar na vida, da forma de participar no colectivo social. Por outro lado, lembro-me bem da época, há uns anos, em que surgiram os blogs, cujas abordagens eram muito mais interessantes do que se lê hoje em dia, talvez por estarem voltados para o exterior e não para o interior da pessoa que os escreve. Há tanta coisa no mundo interessante a que prestar atenção, a que criticar ou apoiar — a divulgar –, que é uma perda de tempo voltar todos os dias à conversa centrada nas angústias ou nos sonhos individuais. Isso só interessa ao próprio. Divulgá-lo não acrescenta nada ao valor dos blogs. É verdade que se vive uma época de individualismo, em que quase tudo se centra na pessoa e não no colectivo. A prova disso é a tendência para se andar quase todo o dia com o nariz enfiado nos smartphones lendo ou teclando mensagens, jogando, ou de phones nos ouvidos. Há um desprezo/alheamento pelo que se passa fora do pequeno mundo individual, que por vezes toca a misantropia.