O conto

O género literário Conto é, hoje em dia, muito desconsiderado em Portugal. Ninguém escreve contos, ninguém publica contos, provavelmente porque ninguém os lê. Ou quase ninguém. A verdade é que, por cá, se lê muito pouca literatura. Há muitas explicações para o fenómeno, todas boas e todas más. Não é aqui o local para essa discussão. Não publicar contos é estranho. Talvez a razão para esse desinteresse se deva a sermos um país de poetas, como gostamos de nos etiquetar. Poetas que publicam pouco porque as editoras não estão para aí viradas. Mas escrevem muito para a gaveta. Melancolias. Afinal, se somos todos poetas quem é que vai ler a nossa poesia? Apenas nós próprios, claro. Ainda assim, publica-se muito mais poesia, contando com edições de autor, de pequena tiragem e pagas, do que se publica o mal fadado conto. O género policial também não é cultivado entre nós — e já foi. Salva-se o romance, embora em decadência, não tanto de títulos, mas de qualidade. Mas foi o conto que aqui me trouxe. Essa arte de contar uma estória de forma mais ou menos condensada. E então aqui deixo dois contos (bem condensados) da escritora americana Lydia Davis, vencedora do Prémio Man Booker em 2013, uma especialista no género (como Alice Munro).

Longe de Casa

Havia tanto tempo que não usava uma metáfora!

Sozinha

Ninguém me telefona. Não posso verificar o atendedor de chamadas, porque não saí daqui. Se eu sair, pode alguém telefonar enquanto estou fora. Então posso verificar o atendedor de chamadas quando voltar.

Lydia Davis in “Contos Completos”, Relógio D’Água, Lisboa, 2012