Mau tempo no canal

(Para assinalar o 40.º aniversário da morte de Vitorino Nemésio, ocorrido este ano, deixo aqui a abertura da sua obra emblemática «Mau tempo no canal».)


— Mas não voltas tão cedo…

João Garcia garantiu que sim, que voltava.

Os olhos de Margarida tinham um lume evasivo, de esperança que serve a sua hora. Eram fundos e azuis debaixo de arcadas fortes. Baixou-os um instante e tornou:

— Quem sabe…?

— Demoro-me pouco… palavra! Cursos de milicianos… Moeda fraca! Para a infantaria, três meses. Se não fecharem os concursos para secretários-gerais, então aproveito. Bem sei que há só três vagas e mais de cem bacharéis à boa vida… Mas não tenho medo das provas. Bastam algumas semanas para me preparar a fundo… rever a legislação.

Entrava em pormenores. Margarida ouvia-o agora vagamente distraída, de cabeça voltada às nuvens, como quem tem uma coisa que incomoda no pescoço, um mau jeito. O cabelo, um pouco solto, ficava com toda a luz da lâmpada defronte, de maneira que a testa reflectia o vaivém da sombra ao vento.

Estavam quase ao alcance da respiração um do outro: ela debruçada num muro de pedra de lava; ele na rampa de terra que bordava a estrada ali larga, acabando com a fita de quintarolas que vinha das Angústias até quase ao fim do Pasteleiro e dava ao trote dos cavalos das vitórias da Horta um bater surdo, encaixado.

Vitorino Nemésio in «Mau tempo no canal»