Inocente

Nunca soube o que se passou lá atrás, na sala de aula. Qualquer coisa foi, porque me doeu. Até sangrei. Não imagino como tudo começou, mas sei como acabou. À saída das aulas, quando atravessava sozinho o recreio da escola em direcção a casa, senti uma forte batida na cabeça. Levei a mão ao cabelo e trouxe-a cheia de sangue. Olhei para trás. O Virgílio e o Salvador atiravam pedras um ao outro, travavam-se de razões. Não sei quais. Nunca soube o quê nem o por quê. Mas deviam ser ponderosas essas razões, para me terem atingido, a mim, um inocente naquela guerra. Resultado: levei dois pontos na cabeça. As guerras atingem sempre os inocentes. Foi há sessenta anos. Ainda não se falava de bulling.