O luxo da gata Mafalda

Nas traseiras da casa onde moro, encontra-se abandonada há muitos meses uma velha carcaça de automóvel, toda desconjuntada, a que já faltam os vidros, o motor, os bancos e as rodas. Por dentro, está repleta de folhas de árvores e papéis velhos e sujos.

Os meus vizinhos, quando por ali passam, fazem uma cara de repulsa e comentam:

– Que maçada! Nunca mais levam daqui este lixo.

A miudagem filha dos meus vizinhos, sempre que tem um momento livre foge à vigilância dos pais e, pulando de contente, exclama:

– Eh, malta, vamos brincar aos motoristas – então, é ver quem chega primeiro ao volante da geringonça.

Quando vem a noite, a ninhada da gata Mafalda desliza com suavidade de pezinhos-de-lã para dentro da carripana. Ao reparar naquele verdadeiro tapete de folhas e papéis velhos, enrola-se, amorosamente, a um canto e sonha feliz.

“Que bela casa para uma família de gatos morar.”

 

António Garcia Barreto in “O Luxo da Gata Mafalda”, Edições ASA, 2.ª ed., Porto, 1997