Week-End

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Entretanto continuavam a olhar um para o outro, sorrindo levemente, sem palavras. Beijavam-se, e de novo tombavam para o lado e ficavam assim, as bocas entreabertas, os olhos a luzirem.

Estava calor e muita luz no pequeno quarto do hotel barato. O sol forte que rompia entre as frestas do estore espalhava-se pelas paredes nuas e pela roupa revolvida da cama. O moço suava, o suor corria-lhe no queixo e nas axilas misturado com a saliva dos beijos.

Passou-lhe as mãos pelas faces, com uma ternura súbita:

– É indecente. Estou a molhar-te com suor.

– Querido, segredou ela; e sorria.

Então ergueu-se no leito limpando-o carinhosamente com a ponta do lençol enquanto ia dizendo “querido, oh querido” e deixava que os dedos dele lhe percorressem ao de leve o corpo.

– E agora?, brincou.

 

José Cardoso Pires, início do conto Week-End em “Histórias de Amor”, Edições Nelson de Matos, 2.ª ed., 2008

 

NOTA: As palavras sublinhadas a azul correspondem aos cortes da censura no início deste primeiro conto, na primeira edição do livro, em 1952. Mais à frente há páginas quase totalmente censuradas. O livro foi apreendido nesse ano.