As cadeiras do shopping

Os velhos estão sentados nas cadeiras do shopping, como se estivessem na sala de um asilo ou de uma casa de repouso. Estão sentados de olhar parado, a vida a correr-lhes na tela do cérebro, uma fita em reprise. Um de entre eles mais desenrascado nas circunvalações de um smartphone, faz a tela girar para cima e para baixo, e da direita para a esquerda, procurando alguma coisa que não encontra. Talvez não saiba como encontrá-la. Levanta-se e vai à vida, logo substituído por outro utente da cadeira, que traz um jornal na mão. O jornal que todos os velhos lêem hoje, porque trazem as notícias preparadas para responder às suas perguntas, tal como durante o consulado salazarista acontecia com o Diário de Notícias, o órgão não oficial do Estado Novo. As coisas não mudaram assim tanto. Mudam exteriormente, mas a mentalidade é uma mudança de longa duração, como a classificava o historiador Fernand Braudel.