Grafomania

A irresistível proliferação da grafomania entre os homens políticos, os chauffeurs de táxis, as parturientes, as amantes, os assassinos, os ladrões, as prostitutas, os prefeitos, os médicos e os doentes, demonstra-me que qualquer homem, sem excepção, traz em si a sua virtualidade de escritor, de modo que toda a espécie humana poderia, com razão, descer à rua e gritar: somos todos escritores.

Porque cada um sofre com a ideia de desaparecer, de não ser ouvido nem visto, num universo indiferente e, por essa razão, quer, enquanto ainda é tempo, transformar-se no universo das suas próprias palavras.

Quando um dia (muito em breve) o homem acordar escritor, terá chegado o tempo da surdez e da incompreensão universais.

 

Milan Kundera in “O Livro do Riso e do Esquecimento”