Páginas ao acaso

(…) O meu avô Claudino (…) Mandou pôr um portão de ferro à entrada da Quinta das Tílias, que ficava logo ali, à saída da cidade. Disseram-me que ele tinha um grande orgulho naquele portão. Era um portão alto, encomendado no Norte e que custou uma fortuna: abria sobre os dois cunhais de pedra que rematavam um muro de três metros de altura e que acompanhava a partilha da quinta com a estrada. Tirou a velha cancela de madeira, implantou o portão e ficou todo ufano dele. Um dia chegou a cavalo ao cair da noite. O caseiro veio de lá, de corrida, para não o fazer esperar e abriu o portão com as ganas de quem está a fazer um serviço à vista de quem manda. O portão guinchou nos gonzos e espantou o animal que se levantou nas patas. O meu avô caiu de cabeça: ainda o levaram para a cama mas, quando o estenderam, já estava morto.

 

António Alçada Baptista in “Tia Suzana, Meu Amor”