O cemitério japonês

Uma visita, principalmente a primeira, a um cemitério japonês, cidade de mortos, assembleia silenciosa de gerações extintas, impressiona e comove. Sucede isto em qualquer outro cemitério, em qualquer parte do mundo; não se disturba impunemente a quietação dos mortos. Mas aqui, talvez, a impressão é mais profunda, já pela grandiosidade da paisagem em volta do local, assente de ordinário sobre alguma encosta da serra, ensombrado de arvoredo secular, aberto a largos horizontes, já pelos carinhos que os vivos vão prestando aos seus defuntos, do que notamos, a cada passo, indícios inequívocos.

Os cemitérios japoneses alastram-se frequentemente ao lado de grandes templos budísticos, dos quais são dependências; então, os bonzos neles superintendem. Quando não há templos próximos, haverá sempre algum casebre, abrigo de alguém que guarda o sítio.

 

Wenceslau de Moraes in “A dança das borboletas”, o Independente, 2004