Dias cinzentos

Não gosto de dias cinzentos. Roubam a cor da vida, acentuam a melancolia. Nos dias cinzentos não há o brilho da luz; e a luz é (quase) tudo na vida. A luz, a água e o sol. Talvez por isso gosto da amenidade do tempo grego, do céu azul, das águas serenas que lambem as areias das praias. O mesmo posso dizer de Portugal. Olho através da janela e tenho saudades do tempo alegre, soalheiro e quente, que me visita regularmente na linha que vai de Lisboa a Cascais. Sim, ainda estamos no Inverno. As árvores continuam despidas, vergadas, por vezes, a uma brisa demasiado agreste. O rio Tejo corre cinzento para a foz, com um céu da mesma cor a acompanhá-lo. Não sei o que o Cristo-Rei, na Outra Banda, pensa disto. Continua de braços abertos, como se quisesse receber Lisboa nos seus braços. Mas também ele deve sofrer de melancolia, imerso na neblina que lhe rouba os contornos e afasta o brilho dos dias de sol.