Saio da cama

Saio da cama pela fenda do lençol e
fecho-a sobre ti. Toco o chão ao de
leve, como uma ave pousa na pele 
das ondas. Visto-me às escuras -- tão

mais discreta a blusa do avesso, a saia
tão distraída nas costuras. Vou
para a cozinha de sapatos na mão e

escrevo-te um bilhete: deixei-te um
beijo sobre a tua almofada antes
de sair. Não preciso assinar.

Maria do Rosário Pedreira, "Poesia Reunida", Quetzal, 2015

Casa/descasa

O amor hoje em dia começa na relação sexual e não no conhecimento mútuo. Há quem confunda amor com sexo. Vão à procura de amor pelo lado do sexo. Depois casam sem se conhecerem, nem sequer sexualmente. A seguir é o casa-descasa. Se há filhos estes sofrem.

Eles andam por aí

A maioria dos jovens não se interessa pelo que foi o 25 de Abril. Pela transformação de uma sociedade totalitária numa sociedade livre, democrática. Já nasceram em liberdade, pelo que, em geral, não reflectem muito sobre o passado que não viveram. Interessam-se bastante pelos problemas do clima – o que é louvável – embora os Donos Disto Tudo continuem a levar o barco no rumo que lhes interessa. Com a pandemia os problemas sociais e económicos agravaram-se. Claro, os DDT passam incólumes por entre a borrasca e aumentam as suas fortunas. Em Portugal (e não só), começam a reaparecer as famílias de ideologia fascista pretendendo aproveitar a maré para voltar a uma sociedade patrulhada pelo medo. Não podemos facilitar. Não há lugar na democracia para quem não é democrata. Os DDT e os seus homens de mão sabem fingir que são o que nem em sonhos admitem ser. Redobremos a vigilância para continuarmos a ter liberdade e democracia.

Trombone

O Facebook devia chamar-se Trombone porque é nele que toda a gente mete a boca para dizer o que deve, o que não deve, contar a vidinha, fazer piruetas vocais e outras coisas mais. Mas aos vizinhos, pessoas físicas, já ninguém liga. Rareiam as conversas, não há mais o salutar, Bom dia!, escasseiam os gestos de ajuda, de saber como está, se precisa de alguma coisa, etc. Boa vai ela, Nossa Senhora da Agrela.

Um bómito, carago!

As redes sociais são um bómito, carago. Um gajo expulsa a canalha que não lhe interessa, mas ela rompe por baixo da porta e pumba!, retwita e partilha as suas azias futebolísticas, políticas, dores de corno, invejas e pequenas glórias. É de mais, cambada. Vou ali ler uma prosa.

Menina, não sei dizer

Menina, não sei dizer, 
Vendo-vos tão acabada,
Quão triste estou por vos ver
Fermosa e mal empregada.

Quem tão mal vos empregou,
Pouco de mim se doía,
Pois não viu o quanto me ia
Em tirar-me o que tirou.
Obriga o primor que tem
Lindeza tão extremada
Que digam quantos a vêem:
- Fermosa, e mal empregada!

Tomastes da fermosura
Quanto dela desejastes
E com ela me guardastes
Pera tão triste ventura.
Matáveis sendo solteira,
Matais agora em casada;
Matais de toda a maneira,
Fermosa, e mal empregada.

Luiz Vaz de Camões, "Lírica"

Exercícios de palavras

Visto minha roupa de 
baile e vou dançar sobre
as águas do rio.

§

As flores do meu jardim
moram à sombra do regato e
do canteiro de jasmim.

§

Destapo a panela e
convido-te a cear o
aroma da sopa de beldroegas.

§

Dei com a lua estilhaçada
nas pedras do meu quintal
A gravidade portou-se mal.

(agb)

Resiliência

Resiliência é uma palavra tão moderna na boca da burguesia supostamente esclarecida, tão bonita, tão intelectual, que me apetecia, sei lá… deitá-la para o lixo levando com ela os resilientes. É uma palavra que até amarga na boca, entre-choca com os dentes, obrigando-me a cuspi-la como um caroço inoportuno.

Não seria mais bonito superação, superar?

Resiliência tem a ver, sobretudo, com a resistência de materiais. É também uma palavra ligada ao meio académico, à psicologia, por exemplo. Fora desse contexto foi adotada pelos políticos para fingir que são versados em altas explosões de inteligência política, tendo alguma coisa de novo para oferecer ao cidadão votante. Porém, tudo neles é velho e, por vezes, até, apalhaçado. Há exemplos atuais.

O primeiro beijo no cinema

1 – O primeiro beijo no cinema. O primeiro beijo na boca no cinema foi muito provavelmente dado pela jovem e loira May Irwin e o bigodento John C. Rice num filme Edison de 1896. O filme retomava a história de uma peça intitulada The Window Jones (“A Viúva Jones”). Provocou, a 15 de Junho de 1896, no The Chap Book (segundo Jacques Deslandes) ou no Chicago Tribune (segundo outros) a ácida e virtuosa indignação do crítico Herbert S. Stone: “Nem um nem outro são fisicamente muito atraentes e o espectáculo [no teatro] do seu prolongado repasto nos lábios era difícil de suportar. Em tamanho natural, tais coisas já são animalescas. Mas nada comparado com o que agora se pode ver. Alargadas a dimensões fenomenais e repetidas três vezes, são absolutamente nojentas. (…)

Dominique Noguez “Vinte e Tantos Beijos no Cinema”, citado por Gérard Cahen in “História do Beijo”, Círculo de Leitores, 1998

Outros tempos…