Balada do Jardim de Pedras

A noite iluminou-se com a luz de mil archotes. Era dia sendo noite. Uma chuva de estrelas desabou sobre a minha cabeça evocando uma cascata de fogo-de-artifício. Não foi alegria o que senti, mas um repentino e inexplicável aperto no peito, um sufoco de adeus-vida. Algo de muito grave estava a acontecer e eu não podia impedi-lo, nem fugir. A cidade já sofrera, séculos atrás, um abalo devastador, que a reduzira a cinzas e a pó. Nos meus ouvidos repercutiam-se os gritos aflitivos dos sobreviventes. O receio de que a tragédia se estivesse a repetir roubou-me o discernimento. Senti-me perdido num mundo em derrocada. Minutos depois, compreendi que estava apenas a acordar de um sonho agitado após uma noite de insónia. Olhei para o teto das águas-furtadas com um olho fechado e o outro aberto, tirando a prova dos nove à realidade. O estuque estava no seu lugar e o mundo também. Senti um forte desejo de tomar uma chávena de café, aromático e fumegante. Era urgente acordar. Sou muito lento a reagir pela manhã. Preciso de algum tempo de adaptação antes de poder desafiar o sol e explorar a vida.

Feitas as abluções matinais, vesti um fato de tecido leve, escolhi um chapéu de tom claro e saí de casa disposto a tomar o pequeno-almoço na leitaria Mimosa. Café com leite e uma torrada bem coberta de manteiga, a que o meu compadre Artur acrescenta duas colherzinhas de doce de gila, para deixá-la com um sabor peculiar. A felicidade pode ser um instante assim.

António Garcia Barreto in “Balada do Jardim de Pedras“, romance (trecho inicial) protagonizado pelo detetive Eneias Trindade. Registado no IGAC – Instituto de Gestão de Atividades Culturais, sob o n.º 3530/2016

Clássicos com o JN

Book CoverO Jornal de Notícias, do Porto, traz em anexo, ao domingo, Os Essenciais da Literatura Portuguesa. Saíram já A Cidade e as Serras de Eça de Queiroz e, amanhã, vamos ter O Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco, edições da Book Cover Editora. E estão já prontos outros títulos. Aproveitem.

 

A voz do búzio

O garoto do cabelo cor-de-mel agachou-se, deixou-se escorregar ao longo do último troço de rochedo e encaminhou-se para a lagoa. Embora tivesse tirado o blusão, parte do seu uniforme escolar, e o arrastasse agora pela mão, a camisa cinzenta colava-se-lhe à pele e o cabelo encodeava-se-lhe na testa. À sua volta, a funda clareira rasgada na selva era um banho de calor. Rompia pesadamente por entre as lianas e os troncos quebrados, quando um pássaro, uma visão de vermelho e amarelo, cintilou numa fuga para o alto com um grito de feitiço. A este grito o eco respondeu com outro.
– Eh! – disse uma voz. – Espera um momento!
O matagal num dos bordos da clareira, agitou-se e uma saraivada de gotas de água caiu com estridor.
– Espera um momento – repetia a voz. – Estou aqui preso.

William Golding, “O Deus das Moscas”, Vega, 1997

 

Nascida do dia: Pearl S. Buck

Conversamos?!...

Pearl Sydenstricker Buck, mais conhecida por Pearl S. Buck e também conhecida por Sai Zhen Zhu, nasceu a 26 de junho de 1862, em Hillsboro.

Encontrei um livro seu, por acaso, na biblioteca itinerante da Gulbenkian. Lembro-me que foi o primeiro que dela li: A flor oculta. Um insight próximo da Madame Butterfly. E como eram fáceis de encontrar e rápidos de ler, ocupei-me com outros nesse verão. Imagino que foi leitura da minha adolescência, como de muitas outras pessoas.

Em 1930 publicou Vento Leste, Vento Oeste e, em1931, Terra Bendita que vendeu 1,8 milhão de cópias somente no primeiro ano. Por esta obra, recebeu o Prémio Pulitzer de Ficção em 1932.  Nobel de Literatura de 1938.

Vários dos seus livros foram escritos sob o pseudónimo John Sedges. Amiga de Eleanor Roosevelt, advogou pelos direitos que deveriam ser concedidos às mulheres e pela igualdade racial, bem antes dos…

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