Estórias de bolso

Dudu era um gato novo, irrequieto, de corpo escorreito, que um dia desapareceu pela fresta da porta. Guida ficou desolada. Amava aquele gato jovem e traquinas. Foi com enorme surpresa que, dias depois, deu por alguém abrir a porta de sua casa com uma chave falsa. Não era Dudu, o gato. Era um jovem atraente, com olhos verdes de gato maltês, que disse chamar-se Roque Felino. Guida decidiu não mais procurar Dudu. Afinal não precisava de um gato vadio.

© António Garcia Barreto in “Estórias de Bolso

Ofício de escrever

“Uma das grandes lições que Hemingway deixou (aos escritores) foi que o trabalho de cada dia só deve interromper-se quando já se sabe como se vai começar no dia seguinte.”

Enrique Vila-Matas, livro citado anteriormente

O Porto

Mantova, 08-09-2007
VILA MATAS Enrique, writer
© BASSO CANNARSANo Porto, conservada tal como foi inaugurada em Janeiro de 1906, com a sua deslumbrante fachada neogótica, encontra-se a livraria Lello & Irmão, a mais bela livraria do mundo, a catedral da literatura.
(…)
A vida no Porto tem o ritmo antigo dos pés descalços, como diria Pessoa. É uma cidade longínqua, de outro tempo, e os seus habitantes vestem rigorosamente de cinzento e negro.
(…)
Cidade rara entre as raras. Cidade triste e longínqua em que penso frequentemente enquanto recordo o que disse a mãe de Pessoa quando lhe perguntaram se estava ao corrente de que o seu filho começava a ser conhecido em todo o mundo: “Olhe que o Fernando é tão famoso que até já no Porto o conhecem”.

Enrique Vila-Matas, “Da cidade nervosa”, Campo das Letras, Porto, 2006

Há vagas para leitores

No mesmo ano em que uma sondagem do semanário Expresso revelava que 43% dos portugueses não liam um único livro há seis meses, leio que na Finlândia as pessoas são bastante mais amigas da leitura e que são vendidos por ano no país cerca de 20 milhões de livros, o que indica aproximadamente 4 livros por pessoa, incluindo as crianças. Um em seis finlandeses entre os 15 e os 79 anos compra em média 10 livros por ano; e não se pode dizer que as novas tecnologias tenham afectado estes bons hábitos, pois em 1995 os números eram significativamente mais baixos.

Maria do Rosário Pedreira (poeta e editora) no blog “Horas Extraordinárias”

Parabéns, Bocage

BocageDe cerúleo gabão não bem coberto,
Passeia em Santarém chuchado moço,
Mantido às vezes de sucinto almoço,
De ceia casual, jantar incerto;

Dos esburgados peitos quase aberto,
Versos impinge por miúdo e grosso,
E do que em frase vil chamam caroço,
Se o quer, é vox clamantis in deserto.

Pede às moças ternura, e dão-lhe motes!
Que tendo um coração como estalage,
Vão nele acomodando a mil pexotes.

Sabes, leitor, quem sofre tanto ultrage,
Cercado de um tropel de franchinotes?
É o autor do soneto: é o Bocage!

Manuel Maria de Barbosa l’Hédois du Bocage in “Poesias”

(nos 254 anos do seu nascimento)